Slow Blues

A dicotomia entre arte e profissão

Sobre o João


Um João por trás da lente, mas sempre dentro do meu coração...


Falar sobre alguém, é uma grande responsabilidade e falar como se vê esse alguém é ainda uma responsabilidade maior. Falo sobre alguém muito especial para mim e para a história da minha vida, alguém que vejo com os olhos de um coração que transbordou de muita Magia e Amor assim que o conheci.


A vida brindou-me com um sobrinho, do tipo “irmão mais novo”, companheiro de muitas aventuras e confidente de muitas partilhas.


Dotado de uma personalidade única, com uma forma muito própria de ver o mundo – singular, curiosa e profundamente sensível. Nele existe uma inquietação bonita, uma vontade constante de descobrir, de sentir e de viver intensamente.


Apaixonado pela natureza e pelo mundo, é alguém que se sente em casa em qualquer lugar. As viagens, as diferentes culturas e os encontros pelo caminho são para ele alimento para a alma. A sua vida é marcada por paixões intensas e por uma curiosidade que nunca se esgota.


Através da sua lente, absorve o mundo e capta a sua magia. Como fotógrafo, tem o talento raro de guardar momentos – aqueles instantes simples e fugazes que muitas vezes passam despercebidos aos outros e narrar histórias. Uma capacidade inata de ver as histórias por trás das pessoas.


É o meu “Hakuna Matata”, uma presença que me lembra que a vida deve ser vivida com mais liberdade e menos medo. É a minha “bola de berlim”: doce, especial e impossível de não amar.


Talvez seja isso que mais admiro neste João por trás da lente, essa forma tão genuína de existir no mundo, de viver com o coração aberto, de se perder em paisagens e pessoas, e de transformar tudo o que vê em memória, em imagem, em história.


“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” - José Saramago


Marina Braz Cardoso

Memória descritiva


Quando somos jovens e o nosso imaginário flutua entre sonhos e esperanças, muitas vezes somos convidados a viagens a uma terra prometida chamada o emprego de sonho. Médico, astronauta, jogador de futebol seriam provavelmente as respostas mais comuns para os jovens rapazes da minha época, mas eu não me recordo de ter tido este tipo de interesses. Se calhar se falarem com os meus pais ou com os meus avós, talvez eles se lembrem de outra forma, mas pessoalmente não me lembro que queria ser isto ou aquilo.

O emprego de sonho para mim surgiu quando percebi que amava fotografar. Que era muito feliz a criar arte e a desenvolver projetos artísticos. Isto aconteceu relativamente tarde, já numa fase adulta, do alto dos meus 19/20 anos. Na altura já trabalhava e a fotografia ocupou um lugar de hobbie para mim. Fotografava o que mais gostava, o que me fazia sentir vivo, o que queria mostrar ao mundo.


Uma coisa que todos nós que perseguimos uma carreira artística temos por certo é que ao longo do caminho ouvimos uma de duas frases: “Isso não dá dinheiro, tens que escolher outra coisa, ninguém faz vida disso” ou então “E trabalhas em que mais?”. A nossa sociedade não está formatada para que um artista seja um profissional bem sucedido tal como um médico, um advogado ou um professor. Se somos artistas, vendemos a nossa possibilidade de ser bem sucedidos ao Diabo em troca de inspiração divina (ou maquiavélica, neste caso) em troca de sermos felizes a fazer aquilo que fazemos.

Em Dezembro de 2018, com 30 anos, vi-me sem trabalho ao fim de uma longa jornada num percurso profissional ligado ao mundo das telecomunicações. Foi nesse momento que pensei “Que se lixe, se alguma vez houve um momento certo para tentar, é neste momento!” e decidi assim dedicar-me a tempo inteiro à fotografia. Queria finalmente fazer algo que cumprisse esse sonho do, não tão jovem, João dos 20 anos e trabalhar em algo que me ia deixar feliz.

Entre 2019 e 2023 dediquei-me de corpo e alma à fotografia e a fazer dela o meu ganha pão. E, de facto, hoje em dia consigo viver a minha vida a trabalhar em fotografia e atividades relacionadas. Spoiler Alert: talvez tenha sido aqui que vendi a alma ao Diabo e não na procura por obter inspiração divina. 


O que vos vou contar hoje, e que é o que nos traz a este projeto, é que viver de fotografia e criar arte com fotografia não andam sempre de mãos dadas. Muitos colegas vão rever-se nisto, muitos vão discordar, mas para mim esta é a realidade. É aqui que chegamos a esta dicotomia entre a arte e a profissão. Aquilo que eu fotografo para pagar contas e ter um rendimento mensal relativamente estável, dificilmente é o que mais gosto de fotografar. Muitas são as vezes em que a fotografia não passa de uma forma de gerar rendimento e da qual não tiro qualquer gosto ou prazer.

“Oh João, mas ao menos fazes o que gostas!” Errado. Outro pressuposto errado. Eu gosto de fotografar, gosto de criar arte, gosto de dar espaço ao meu eu criativo. Tudo certo. Mas a maioria do tempo isso não está relacionado com o que eu faço. E é desse sitio, onde tantas vezes me encontro, que nasce este projeto.

Slow Blues é um projeto autoral que procura resgatar o meu artista interior, perdido pela necessidade de dar mais espaço ao fotografo profissional e que paga as contas. Gosto de dizer muitas vezes que este projeto sou eu de alma aberta a falar para todos vocês. E como sou eu, ele foi concebido para ser tal como eu, irreverente, incomodativo, que não se quer calar. Quando comecei a pensar neste projeto tinha muito poucas certezas do que iria fazer, do que queria alcançar, apenas que queria ser eu e honesto com as minhas ideias e visões. Havia, contudo, uma certeza em mim. Este não era um projeto para redes sociais! Não queria que estas imagens fossem vistas na efemeridade do scroll ou na procura do "like". Não o queria trendy nem popular. Quero só que seja o que tiver de ser e que acima de tudo me deixe verdadeiramente realizado.

Decidi então falar sobre algo que me é especial, que é a liberdade de sermos nós mesmos e vivermos em pleno com o nosso corpo. Sabem os padrões de beleza, padrões do aceitável ou não, padrões que nos levam tantas vezes a forma de censura, repreensão ou segregação… Aqui não queremos nada disso. Este é um projeto que se quer representativo, livre e sobretudo um projeto que quer ser sobre amor. Amor próprio, amor para com os nossos pares, amor numa sociedade que tantas vezes parece esquecer-se do que isso é.


Todos nós em alguma fase da vida temos relações menos simpáticas com o nosso corpo. Seja porque motivo for. Mas não nos podemos esquecer que é com eles que vivemos a nossa vida. É com ele que experenciamos o mundo e que nos ligamos a tudo o que nos rodeia. Então temos que ser mais gentis para connosco e com os outros levar a uma maior aceitação do nu, do natural para que possamos ser mais livres e que nos aceitemos melhor.


Não podia prever era que tanta gente ia alinhar nesta ideia louca e juntar-se a mim neste projeto. Tive modelos de todos os tipos que possam imaginar. Desde a minha querida Bina, chata como só ela sabe ser e que do alto dos seus 68 anos disse logo que eu tinha que a fotografar, até aos meus pequenos modelos que no colo das suas mães nos mostram que há amores e laços que quem está de fora nunca vai perceber. Não podia também prever que iria, no âmbito deste projeto, fazer a sessão mais dura que já fiz até hoje. Uma sessão onde tive de ser forte, apesar da cabeça estar a viajar a mil, e onde encarei pela primeira vez de perto a dura realidade que algumas doenças nos trazem. Mas fui também descobrindo que somos muitos os que pensamos que a sociedade não devia ser assim. Que somos muitos com lutas internas e com questões que não devíamos ter em relação ao nosso corpo. Somos muitos em que é preciso haver mais compaixão, mais amizade, mais cuidado, mais amor. Cresci muito com cada pessoa que fotografei aqui e com cada partilha que estas sessões trouxeram. Obrigado pela vossa confiança.

Tecnicamente, este projeto foi idealizado com algumas das minhas técnicas favoritas que tenho explorado ao longo dos anos, nomeadamente a técnica de luz Low Key, que é uma das minhas técnicas de luz de eleição e permite que as imagens tenham esta luz bastante pontual, mostrando só o que escolhemos iluminar, com maior carga emocional às imagens. Bem como a impressão através da técnica da cianotipia, apresentada pelo meu formador Nuno Oliveira e que adotei para os meus projetos enquanto estudava fotografia em Setúbal. Onde quer que esteja, espero que veja isto e se lembre das nossas conversas sobre as coisas que queria alcançar e sei que tenho, como sempre tive, o seu apoio nisto também.


A cianotipia é um dos processos de impressão fotográfica mais antigos e charmosos do mundo e famosa por produzir imagens em tons intensos de azul da Prússia. É uma técnica de impressão por contacto, muito vista com flores, folhas ou elementos da natureza mas que também pode ser utilizada na fotografia com um negativo em acetato que vai ser colocado por cima de uma folha de papel pincelada com uma mistura de Citrato de Ferro Amoniacal e Ferricianeto de Potássio. Não se preocupem que é totalmente seguro. Depois de juntar o acetato e o papel com o químico, expomos a imagem ao sol e é ele que vai revelar a nossa fotografia. Depois é só passar por agua e estão prontas, a água remove os sais de ferro que não foram expostos à luz. Onde a luz passou pelo acetato, o ferro oxidou e fixou-se nas fibras do papel, revelando a imagem em azul.


Não é inocente a escolha desta técnica pois as cianotipias além de requererem o nosso tempo e calma, levando a um processo de reflexão à medida que as imagens se forma, não podemos apressar o processo ou vamos comprometer os resultados. Ainda assim, ao longo da exposição vão ver imagens que não estão “perfeitas”, algumas com mais contraste que outras, algumas com mais informação que outras, tudo isso fruto da experimentação que esta técnica nos traz. Eu não quero imagens perfeitas, quero imagens reais. Tais como nós e como os nossos corpos. Além disso, estas imagens são também elas inclusivas. Mostram-nos todos iguais a azul, ainda que todos diferentes e únicos, reforçando a singularidade do projeto.


Para terminar gostaria de partilhar convosco que este foi um processo bastante louco e desafiante. A vida às vezes encarrega-se de nos trazer boas surpresas e cabe a nós percebermos e aceitarmos. Para mim isso aconteceu quando a Fundação me perguntou se queria expor o meu trabalho nestas paredes. Muitos não sabem mas este edifício tem um significado especial para mim, vivi aqui das melhores aventuras da minha vida quando ele era sede dos escuteiros e tentei trazer um pouco dessa ligação também para a exposição com a forma como vêm as imagens expostas. Um misto de voltar aos escuteiros com o caos que a minha casa e estúdio ficam quando estou a preparar cianotipias, porque é isto de facto que acontece. Imagens penduradas em todo o lado. Um grande obrigado Rita e Susana por acreditarem no meu projeto e por serem uma porta aberta à cultura e aos trabalhos que tanta falta fazem ser vistos.


Resta-me agora agradecer a todos a vossa presença e apoio ao longo deste processo e deixar um especial agradecimento à minha familia que me apoia sempre não interessa quão loucas são as minhas ideias, especialmente o meu irmão Artur que é sempre uma peça fundamental na logística de tudo que de louco quero fazer, ao pessoal da Mesa Doze que são os meus colegas de estrada e com quem partilho as dificuldades do processo, à Bia e ao Fred que ajudaram a que a exposição tivesse forma e controlaram a minha ansiedade logo desde o primeiro momento, ao Xaneca que nunca me deixa esquecer da grandeza do meu trabalho e à Inês que foi encontrando sempre solução para tudo mesmo não sabendo de nada.


Aroha Nui

João Coelhas